terça-feira, 18 de setembro de 2007

De Xapuri ao Ramal do Toco Preto no Acre


Serra da Cantereira, São Paulo 15 agosto 17h

Sai de São Paulo 15/8 com destino a Rio Branco, no Acre. Escalas em São José do Rio Preto, Brasília e Porto Velho que da escada do avião vinha um cheiro forte de fogueira - as queimadas da floresta. No início da madrugada cheguei a Rio Branco. Estou a trabalho para a WWF - Brasil que apóia comunidades à procura da sustentabilidade.Na manhã seguinte fomos numa caminhonete 4x4 para a Reserva Extrativista Chico Mendes.
É inacreditável o trabalho que este seringueiro fez e os resultados conseguidos. Chico Mendes foi o fundador de um sindicato de seringueiros, e dedicou grande parte de sua vida a preservação da floresta amazônica, contra o desmatamento indiscriminado. Nascido no Acre, num seringal próximo à cidade de Xapuri, foi assassinado em 1988. A cidade Xapuri é pequena, mas bem arrumadinha.

















Casa Chico Mendes Xapuri 20h. Casa do Tião - Seringal Floresta

Algumas ruas são calçadas com tijolos vitrificados. De lá atravessamos o Rio Acre de balsa e numa estrada empoeirada fomos para o Seringal Floresta. Uma comunidade de extrativistas. Casas de madeira, fogão a lenha. Quase nada de móveis. Um calor de rachar. Minhas roupas ficam empapadas de suor.O seringueiro Tião – Sebastião Silva nos contou do trabalho deles, da conscientização pelo preço justo da seringa, da copaíba e da castanha-do-Brasil. Ele já deu cursos de capacitação de extração da seiva da copaíba para comunidades indígenas a convite da FUNAI. Na mata fomos extrair copaíba. Dizem que não se pode olhar pra cima nem conversar enquanto se extrai copaíba. Conversamos e olhamos pra cima - fotografei a árvore. Não é que não saiu uma gota de seiva. Ao lado da copaibeira tinha uma pequena colméia de umas abelhas superperigosas, mas não aconteceu nada. As crianças trouxeram ingás e experimentei a fruta de um sabor agradável.



















Semente de copaíba. Tião extraindo copaíba. Seiva da copaíba


Do Seringal Floresta fomos para outra comunidade, no Seringal Rio Branco, também resolvida em termos de conscientização política e de auto-estima. As casas são quase zero em bens, mas com o trabalho cooperativado e a ajuda do governo federal (subsidiam o preço da seringa) já subiram um pouco na escala econômica. Ali conseguimos ver a copaíba aflorar do tronco da árvore. Trouxe um pouco dela. A seringa adquiriu um bom preço porque construíram uma fábrica de preservativos em Xapuri e o látex é o tecido vegetal de maior elasticidade e resistência e no uso específico não pode falhar. Pernoitamos em Xapuri. Na manhã seguinte fomos para Brasiléia conhecer a Reserva Extrativista Chico Mendes. Trabalham com castanha-do-Brasil. Ali, em cooperativa, conseguiram eliminar a figura do atravessador. Numa das casas têm TV, som, e geladeira. O motorista da 4x4 disse que conheceu um sujeito que morreu no dia que a luz elétrica chegou. Ataque cardíaco de emoção. Na escolinha da comunidade a professora falava sobre o uso do trema.

Escolinha Reserva extrativista Chico Mendes


No final da tarde fomos para Cobija, cidade boliviana na fronteira com o Brasil que tem uma espécie zona franca. A maioria dos produtos é de baixa qualidade. Mas vi bolivianas vestidas a caráter e um mercado onde a higiene não era a palavra de ordem. Por uma lei do país é proibido andar de moto com capacete. Alegam que é para diminuir a criminalidade. À noite voltamos para Rio Branco.



Açougue em Cobija - Bolívia

Um dia de folga. Domingão. Dei uma volta pela cidade. Tomei tacacá no Novo Mercado Velho na beira do Rio Acre ao lado de uma ponte iluminada conhecida como Passarela. Nas comemorações do dia do soldado a banda musical do exército tocou sucessos de Luiz Gonzaga e Gilberto Gil com uma pequena exposição de armas em stands espalhados pela praça.















Passarela e o Novo Mercado Velho

Na manhã seguinte fomos pra Manaus. Pernoitamos e pegamos um ônibus para Silves, uma ilha no médio Amazonas. Na lama da estrada que liga Manaus até perto de Silves o bumba dançava pra lá e pra cá. Em Silves a organização feminina Avive produz sabonetes, perfumes e incensos de essências extraídas da mata: breu, cumaru e paxuri entre outras. Já foram premiadas na Suíça e pela revista Casa Cláudia. Agora os homens é que pedem dinheiro para as mulheres.
















Diretoria Avive Produtos Avive Silves - AM


Navegamos de voadeira por mais uma hora pelo lago do Rio Uburu, nas suas águas escuras, até a Comunidade São Pedro ver a extração da copaíba. De novo conversamos e olhamos pra cima e não saiu nada. Esperamos um tempão pelos outros companheiros que não vieram com o rango. O pessoal da comunidade dividiu conosco uma caldeirada de piranha. Fiz a sesta debaixo da mangueira enquanto minha camisa secava de tanto suor. Usava uma toalha para secar a transpiração que chegava a cotejar sobre a máquina fotográfica.






















Caldeirada de piranha e Comunidade São Pedro. Silves -AM

Dois dias no Hotel Shaloon que tinha muriçoca e outros insetos. Foi duro. Na volta embarcamos no expresso - uma lancha que faz o trajeto Silves/Itacoatiara pelo Rio Amazonas e de lá num ônibus até Manaus com o ar-condicionado gelando. Tive que tirar o casaco da mala. Por estas alterações de temperatura peguei uma gripe. De novo em Manaus nos hospedamos num hotel quatro estrelas e voltamos pro Acre. No aeroporto de Rio Branco fretamos um avião bimotor para fotografar as queimadas. Muitas, muitas. O céu está esfumaçado.


Queimada nas proximidades de Rio Branco

Meu apetite tem altos e baixos. O intestino reclama e o meu repertório das coisas brasileiras se amplia e, desta vastidão amazonense, reflito sobre o tamanho do Brasil.
O material que estou fazendo vai ser divulgado em todas as WWF do mundo. As fotografias vão ser ampliadas para exposições fotográficas, catálogos e ajudar estes brasileiros a comercializar seus produtos, obterem uma renda melhor dentro das possibilidades da sustentação.

















Rodoviária de Rio Branco e o encontro do Rio Purus com o Rio Acre


Próxima etapa Seringal Madeirinha em Boca do Acre no Amazonas. Duas horas e meia de voadeira pelo Rio Acre. Ali produzem o couro vegetal. Na floresta o seringueiro Marcos Antonio nos levou nas estradas de seringueiras para ver a coleta do látex e ouvir as histórias deste leite precioso. Todas as seringueiras são mapeadas e têm placas de identificação.
Na manufatura do couro vegetal colocam um pano de algodão esticado numa estrutura de madeira, embebem com o látex e levam pro fumador até dar o ponto. Voltam para o berço onde está o látex e dão um novo banho de leite. Volta para o fumador. Isto por seis vezes. Até obter a espessura requerida pelos compradores. Do fumador transportam para a estufa mantida a 80 graus Celsius. Depois da cura levam a peça para o rancho e cortam em panos (0,80m x 1 m), passam talco para proteger de ranhuras e de, eventualmente, colarem.








Corte, coleta e defumação e cura do couro vegetal




Produtor, costura e artesanato de couro vegetal


Algum tempo depois - dias, meses, anos - viram bolsas, pochettes, sacolas, pastas executivas e o mercado interessado é o alemão. Em 1999 Wilson Manzoni criou uma microempresa na cidade de Boca do Acre / AM para confecção e comercialização de bolsas e mochilas de Couro Vegetal e lançou a grife Seringueira. O objetivo é agregar valor ao produto na região e viabilizar uma saída mais constante para as lâminas de Couro Vegetal da APAS - Associação dos Produtores de Artesanato e SeringaDormi na rede em uma casa sem paredes. Um cortinado em volta da rede para evitar os carapanãs, besouros, aranhas caídas do telhado de palha de coqueiro, e do mosquito da malária que ataca à noitinha e pela manhã. Na noite enluarada sons da floresta povoaram minha insônia. Apesar de estar exausto. Voltamos para Boca do Acre na manhã seguinte.









Boca do Acre


Nesta época do ano o Rio Acre está com pouca água e as muitas árvores caídas no leito dificultam a navegação. Numa topada quebrou a hélice do barco. Um tranco. Foi substituída por outra. O milharal e as melancias, plantados na várzea, já estão quase no ponto de colheita. As melancias já são comercializadas. Chegamos à Boca do Acre (encontro do Rio Purus com o Rio Acre) perto do meio-dia.

Nossa viagem para Rio Branco foi de lotação (táxi) e pegamos um casal de índios (estavam indo para Rio Branco para tratamento de saúde) no quilômetro 82 da BR 317 que ficou parada na manhã de domingo por causa de um protesto dos pecuaristas e agricultores que querem a pavimentação da rodovia. Choveu em Rio Branco e passei toda a manhã no hotel trabalhando as fotos.













Artesãs e produtos artesanais da Comunidade de São Luis do Remanso


No dia seguinte fomos para São Luiz do Remanso - AC. Lá as mulheres fazem jogos americanos, com talos do cacho do açaí, colares e outros objetos com sementes de bacaba e de jarina (considerada o marfim vegetal). As mulheres são fortes, guerreiras e com a venda de seus produtos conseguem aumentar a renda familiar.
Ali todos conhecem o que fez Chico Mendes e seu legado. Acho que o Brasil está ficando diferente.



Corte das toras, empilhamento e corte para os laminadosde madeira


As últimas etapas da documentação fotográfica foram na Indústria de Laminados Triunfo, em Rio Branco e na Fazenda São Jorge, no Ramal do Toco Preto, nas proximidades de Sena Madureira. Eles trabalham dentro dos padrões exigidos pelo IBAMA. Fazem o remanejamento e algumas madeiras são certificadas.
As histórias humanas do Ramal do Toco Preto sugerem um capítulo à parte, mas como o relato está ficando longo paro por aqui.

Texto e fotos de Juvenal Pereira
Setembro de 2007

3 comentários:

Luiz Alfredo disse...

Não sei se te chegou meu escrito feito na 3a.feira quando recebí a notícia de teu blog. Foi + - assim:cara, estou nas nuvens. V. me fez despertar o desejo (já longe)de aventuras, tão normal e frequentes na minha vida de O Cruzeiro. Fechei os olhos e me ví contigo nos purús, tapajós, negros,nas matas e vilarejos dos homens da floresta do amazônico mundo. Partindo de anteontem vou viajar "mais tu" pelo maravilhoso blog (êta nomes feios desta tal de internete). Muitos abraços dos amigos Luiz Alfredo e Aninha.

ANIELISE SANTOS BOEIRA disse...

BOM DIA EU ESTAVA PROCURANDO ARTIGOS OU MATERIAIS PARA MEU TRABALHO SOBRE TÉCNICAS SILVÍCOLAS E ACABEI ACESSANDO SEU BLOGGER, EU ACHEI MUITÍSSIMO INTERESSANTE, FAZ NOS TERMOS A VONTADE DE FAZER UMA VIAGEM DESTA PARA PRESENCIAR MOMENTOS E CULTURAS DO BRASIL,ASSIM COMO ESPERO EU COMO ESTUDANTE E AMANTE DA NATUREZA, POSSA SIM VIVER MOMENTOS COMO VIVEU DURANTE ESSA SUA VIAGEM..

PARABÉNS, FOI UM TEXTO MTO AGRADÁVEL.

ANIELISE SANTOS BOEIRA disse...

BOM DIA EU ESTAVA PROCURANDO ARTIGOS OU MATERIAIS PARA MEU TRABALHO SOBRE TÉCNICAS SILVÍCOLAS E ACABEI ACESSANDO SEU BLOGGER, EU ACHEI MUITÍSSIMO INTERESSANTE, FAZ NOS TERMOS A VONTADE DE FAZER UMA VIAGEM DESTA PARA PRESENCIAR MOMENTOS E CULTURAS DO BRASIL,ASSIM COMO ESPERO EU COMO ESTUDANTE E AMANTE DA NATUREZA, POSSA SIM VIVER MOMENTOS COMO VIVEU DURANTE ESSA SUA VIAGEM..

PARABÉNS, FOI UM TEXTO MTO AGRADÁVEL.