quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O canto dos escravos

Nos anos oitenta hospedei na minha casa em Brasília um indiano que me contou sobre a evolução do poder a partir das construções. No inicio foram as cavernas, depois as choupanas, as casas grandes, os castelos, as catedrais, os arranham céus e as antenas. Em São João da Chapada, nas proximidades de Diamantina, onde nasceu Aires da Mata Machado Filho, filólogo, autor do livro “O negro e o garimpo em Minas Gerais” tem um exemplo desta trajetória da evolução do poder, aí na foto de cima.

Neste povoado foram extraídos muitos diamantes pela mão negra e escrava. Aires coletou letras e músicas que os negros cantavam no trabalho, na diversão e nos ofícios religiosos. Em 1929, o filólogo viajou para São João da Chapada, e ouviu umas cantigas em língua africana ouvidas outrora nos serviços de mineração. Algumas delas estão no livro - em partituras com letra e melodia. Em 1982 Clementina de Jesus, Geraldo Filme e Tia Doca interpretaram 14 cantigas ancestrais dos negros Benguelas (Vissungos) gravadas no disco O Canto dos Escravos da série Memória Eldorado.
Vissungos - palavra que vem do umbundo ovisungo (cantiga, cântico), conforme ensina Nei Lopes em seu Dicionário Banto do Brasil. Mata Machado sustenta a importância dos vissungos, sua influência nos começos daquele arraial e mais “os vestígios da língua das cantigas na linguagem corrente, na onomástica e na toponímia” – os vestígios de um dialeto banto num tempo em que se pensava que a língua dos negros trazidos como escravos para o Brasil resumia-se ao nagô.

Abaixo de São João da Chapada tem o Quartel do Indaiá (homenagem a uma palmeira). Já foi um quilombo.
Umas duas dezenas de casas, a Capela de Santa Rita, umas galinhas pastando, uma horta coletiva, uma mulher levitando em frente da sua casa nos fundos da capela fazem parte deste cenário.
Nesta viagem fomos eu e o Nem de Tal. Antes, quando esteve em São Paulo (junho de 2010), me presenteou o livro do Aires.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Busto de Mulher by Aleijadinho


No final de julho fui para Ouro Preto levar minhas panorâmicas. Fiquei hospedado na casa da Lila, lá no alto do Morro São Geraldo, local da tomada de duas delas: Amanhecendo e entardecendo em Ouro Preto.
A arquiteta Lila Carneiro é uma guerreira. Dá aulas na PUC de Belo Horizonte e tem um ateliê em Ouro Preto. Percorreu a Europa, Ásia e Bahia fazendo desenhos de prédios históricos, sempre sentada e tomando cerveja ou vinho em mesas de bares e varandas de hotéis. Nos conhecemos quando Roberto Carlos Lançou a música Maria, Carnaval e Cinzas no início da ditadura militar.De lá pra cá nossa amizade só se fortaleceu. Nos últimos dias de julho fizemos um jantar na sua casa com especialidades mineiras e o Luiz, um dos convidados, me contou a seguinte história: ele é advogado e representou o Ministério Público na peleja que o Prefeito Ângelo Oswaldo empreendeu para que o Busto de Mulher fosse retirado do Chafariz do Padre Faria ao lado da Igreja de Santa Efigenia e colocando no local uma réplica e o original - pela sua importância histórica e artística (primeira escultura feita por Aleijadinho – 1761, em pedra sabão), seria abrigado em um museu da cidade, coisa comum em outras freguesias, na tentativa de preservar suas formas que já estão dando sinais de desfiguração pela ação da poluição.
Tudo ia muito bem até que no dia aprazado para a transferência, embasados de todos os procedimentos legais para tal mister, com pompa e circunstância, as autoridades encontraram o chafariz cercado pela população local. Esqueceram de fazer a consulta pública. Os moradores negaram a transferência argumentando que, se tentassem fazer a retirada, a primeira escultura feita em pedra sabão pelo mestre Aleijadinho iria virar pó. Eles a quebrariam.
Rolou o maior clima e a cerimônia foi cancelada. Depois de consultas e mais consultas deram ganho de causa para os moradores e ela está lá até no dia desta foto. O argumento principal do ganho da causa é que a guarda é feita espontaneamente pela população da vizinhança. No dia que fiz a foto perguntei a alguns moradores se isto ocorria. Negaram dizendo que ninguém vigia.
Através do IPHAN de SP fui infomado pela Profª Myriam Ribeiro de Oliveira: “Quanto ao busto do Aleijadinho, é aceito por todos os especialistas da área e está no catálogo do German Bazin. O dito chafariz é documentalmente do pai dele, Manoel Francisco Lisboa”

Curiosidades do Google: “Entre estas, imagem simbólica de sua juventude descuidada e boêmia, um busto de mulher com os seios parcialmente desnudos, executado em pedra-sabão e datado de 1761, tem caráter de exceção, pela temática profana, no conjunto de sua obra de cunho quase que exclusivamente religioso.”

P.S. As panorâmicas provavelmente serão expostas, em 2011, na sala de exposições da FIEMG, na Praça Tiradentes quando Vila Rica completará 300 anos.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha


"O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia
ler nem escrever. Às quatro da madrugada, quando a promessa de um
novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e
saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas de cuja
fertilidade se alimentavam ele e a mulher. Viviam desta escassez os
meus avós maternos, da pequena criação de porcos que, depois do
desmame, eram vendidos aos vizinhos da aldeia. Azinhaga de seu nome,
na província do Ribatejo. Chamavam-se Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha esses avós, e eram analfabetos um e outro. No Inverno, quando o frio da noite apertava ao
ponto de a água dos cântaros gelar dentro da casa, iam buscar às
pocilgas os bácoros mais débeis e levavam-nos para a sua cama.
Debaixo das mantas grosseiras, o calor dos humanos livrava os
animaizinhos do enregelamento e salvava-os de uma morte certa. Ainda
que fossem gente de bom caráter, não era por primores de alma
compassiva que os dois velhos assim procediam: o que os preocupava,
sem sentimentalismos nem retóricas, era proteger o seu ganha-pão,
com a naturalidade de quem, para manter a vida, não aprendeu a
pensar mais do que o indispensável.
Ajudei muitas vezes este meu avô Jerónimo nas suas andanças de
pastor, cavei muitas vezes a terra do quintal anexo à casa e cortei
lenha para o lume, muitas vezes, dando voltas e voltas à grande roda
de ferro que acionava a bomba, fiz subir a água do poço comunitário
e a transportei ao ombro, muitas vezes, às escondidas dos guardas das
searas, fui com a minha avó, também pela madrugada, munidos de
ancinho, panal e corda, a recolher nos restolhos a palha solta que
depois haveria de servir para a cama do gado. E algumas vezes, em
noites quentes de Verão, depois da ceia, meu avô me disse: "José,
hoje vamos dormir os dois debaixo da figueira". Havia outras duas
figueiras, mas aquela, certamente por ser a maior, por ser a mais
antiga, por ser a de sempre, era, para toda as pessoas da casa, a
figueira. Mais ou menos por antonomásia, palavra erudita que só muitos anos
depois viria a conhecer e a saber o que significava... No meio da paz
noturna, entre os ramos altos da árvore, uma estrela aparecia-me, e
depois, lentamente, escondia-se por trás de uma folha, e, olhando eu
noutra direção, tal como um rio correndo em silêncio pelo céu
côncavo, surgia a claridade opalescente da Via Láctea, o Caminho de
Santiago, como ainda lhe chamávamos na aldeia.
Enquanto o sono não chegava, a noite povoava-se com as histórias e
os casos que o meu avô ia contando: lendas, aparições, assombros,
episódios singulares, mortes antigas, zaragatas de pau e pedra,
palavras de antepassados, um incansável rumor de memórias que me
mantinha desperto, ao mesmo tempo que suavemente me acalentava. Nunca
pude saber se ele se calava quando se apercebia de que eu tinha
adormecido, ou se continuava a falar para não deixar em meio a
resposta à pergunta que invariavelmente lhe fazia nas pausas mais
demoradas que ele calculadamente metia no relato: "E depois?". Talvez
repetisse as histórias para si próprio, quer fosse para não as
esquecer, quer fosse para as enriquecer com peripécias novas.
Naquela idade minha e naquele tempo de nós todos, nem será
preciso dizer que eu imaginava que o meu avô Jerónimo era senhor de
toda a ciência do mundo. Quando, à primeira luz da manhã, o canto
dos pássaros me despertava, ele já não estava ali, tinha saído
para o campo com os seus animais, deixando-me a dormir. Então
levantava-me, dobrava a manta e, descalço (na aldeia andei sempre
descalço até aos 14 anos), ainda com palhas agarradas ao cabelo, passava da parte cultivada do quintal para a outra onde se encontravam as pocilgas, ao lado da casa. Minha
avó, já a pé antes do meu avô, punha-me na frente uma grande
tigela de café com pedaços de pão e perguntava-me se tinha dormido
bem. Se eu lhe contava algum mau sonho nascido das histórias do avô,
ela sempre me tranqüilizava: "Não faças caso, em sonhos não há
firmeza". Pensava então que a minha avó, embora fosse também uma mulher
muito sábia, não alcançava as alturas do meu avô, esse que,
deitado debaixo da figueira, tendo ao lado o neto José, era capaz de
pôr o universo em movimento apenas com duas palavras. Foi só muitos
anos depois, quando o meu avô já se tinha ido deste mundo e eu era
um homem feito, que vim a compreender que a avó, afinal, também
acreditava em sonhos. Outra coisa não poderia significar que,
estando ela sentada, uma noite, à porta da sua pobre casa, onde
então vivia sozinha, a olhar as estrelas maiores e menores por cima
da sua cabeça, tivesse dito estas palavras: "O mundo é tão bonito,
e eu tenho tanta pena de morrer". Não disse medo de morrer, disse
pena de morrer, como se a vida de pesado e contínuo trabalho que
tinha sido a sua estivesse, naquele momento quase final, a receber a
graça de uma suprema e derradeira despedida, a consolação da
beleza revelada. Estava sentada à porta de uma casa como não creio que tenha havido
alguma outra no mundo porque nela viveu gente capaz de dormir com
porcos como se fossem os seus próprios filhos, gente que tinha pena
de ir-se da vida só porque o mundo era bonito, gente, e este foi o
meu avô Jerónimo, pastor e contador de histórias, que, ao
pressentir que a morte o vinha buscar, foi despedir-se das árvores
do seu quintal, uma por uma, abraçando-se a elas e chorando porque
sabia que não as tornaria a ver."

José Saramago - Discurso ao receber o Prêmio Nobel de Literatura
em 1998.

Acho que não há nada de melhor a fazer para homenageá-lo do que
lhes repassar essa maravilha de discurso que ele proferiu ao receber
o Prêmio Nobel de Literatura e que eu não me canso de ler e reler.

Recebi este discurso enviado pelo meu amigo Nem de Tal que mora em Diamantina - MG

A foto ai de cima foi feita nas proximidades de São Luiz do Paraitinga-SP e a pessoa retratada, ao lado esquerda da árvore, é o fotógrafo Valdir Cruz no começo de sua peregrinação por São Paulo quando iniciou a documentação das árvores de São Paulo para o seu livro. Ele me contou que quando criança em Guarapuava- PR (onde nasceu), lia com a luz do fogão a lenha.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Sábia e ferina macróbia

Jaguar

Peguei na estante as Máximas e Inéditas da Tia Zulmira. Uma das melhores safras do Stanislaw Ponte Preta - o filósofo/humorista dos costumes cariocas e da política brasileira, e vim lendo, no buzão. Editora Codecri 1976. No total são trezentas Máximas e Inéditas com desenhos do Jaguar e prefácio do Sérgio Cabral

Jaguar - desenhista dos bambas. Um dos fundadores do Pasquim: o "hebdomanário".



Política tem esta desvantagem: de vez em quando o sujeito vai preso, em nome da liberdade.

As crises políticas nacionais são tratadas de maneira tão sensacionalista pela imprensa brasileira que, se a gente estiver no estrangeiro, ao ler um jornal brasileiro tem a impressão que, ao voltar, não encontrará mais o país.

O fato de um homem ser muito preparado não implica em que ele seja bom político; creolina também é preparado e limpa latrina.

No Brasil a política se resume em não deixar a onça com fome nem o cabrito morrer.


O carnaval mudou muito. Hoje em dia o verdadeiro folião é aquele que fica em casa, sentado numa confortável poltrona, ouvindo as besteiras que os locutores dizem.

As estatísticas corretas nos deixam sempre uma falsa impressão.

Dono de cartório de protesto é uma espécie de cafetão da desgraça alheia.

Uma mulher do passado da gente dói muito mais do que duas.

Se ginga fosse malandragem o pato era o rei dos malandros.

A experiência ensina que a mulher ideal é sempre a dos outros.

Há sujeitos tão inábeis que sua ausência preenche uma lacuna.

terça-feira, 29 de junho de 2010

O fio de Ariadne e Buda


Moyers: Gosto do que você diz sobre o velho mito de Teseu e Ariadne. Teseu diz a Ariadne: “Eu a amarei para sempre, se você me mostrar como sair do labirinto”. Ela lhe dá então um fio enrolado, que ele vai desenrolando à medida que penetra no labirinto, e depois o segue de volta, até encontra a saída. Você diz: “Tudo o que ele tinha era o fio. É tudo quanto você precisa”.

Campbell: É tudo o quanto você precisa, um fio de Aridane.

Moyers: Ás vezes procuramos, para nos salvar, a fortuna, um poder imenso ou grandes idéias, quando tudo o que precisamos é um pedaço de barbante.

Campbell: Que nem sempre é fácil conseguir. Mas é bom poder contar com alguém que lhe dê uma pista. Essa é a tarefa do professor, ajudá-lo a encontrar o seu fio de Ariadne.

Moyers: Como todos os heróis, o Buda não lhe mostra a verdade em si, mas o caminho que leva a ela.

Campbell: Mas precisa ser o seu caminho, não o dele. O Buda não pode lhe dizer exatamente como se livrar dos seus medos pessoais, por exemplo. Alguns professores podem prescrever exercícios, mas talvez não sejam os que funcionem para você. Tudo o que um professor tem a fazer é sugerir. É como um farol que assinala: “Há pedras ali, navegue com cuidado. Lá adiante, porém, há um canal”.

( O Poder do Mito - Joseph Campbell)

A foto foi feita ontem na Vila Madalena

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Dia de outono


Cinco e trinta da matina. Ligado. Café, arrumações, pen drive, bate papo Gmail, bumba, encontro com Juliana Mieko na fila do terminal Vila Madalena.
Sentados no fundo do ônibus conversamos a estratégia da apresentação: “A necessidade da Câmara dos Vereadores de se comunicar”
Pão na chapa e pingado no bar do Centro Acadêmico da ECA-USP, finalizações, aula iniciada. Mais retoques.
Apresentações de TCC, nervosismo, tempo esgotado. O plano de marketing para a loja PERUSP, de administração familiar é pré-medieval. Show de apresentação!
Agora é nóis na frente da banca e dos alunos. Eduardo, Juliana e eu. Dividimos a apresentação em 3 módulos. Começo eu. Depois Juliana. Alunos e professores atentos. Ficou longa e o Eduardo tem pouco tempo pra finalizar.
Considerações da Banca: O trabalho comunicou e contagiou mas faltou o plano de marketing disse o Prof. Otávio Freire.
A Câmara não vende nada. É um parlamento.

Á tarde no plenário da Câmara se discute a aprovação da construção, ou não, do estádio para sediar a abertura da copa do mundo de 2016, já que o Morumbi dançou. Vai rolar.

Volto pra casa arrastando no bumba. Exausto física e mentalmente. Em casa um bamba pra nivelar e aprece o poeta Rodrigo Garcia. Ficamos ali num lero entre a antropologia e a política. Ele disse que nas aulas que deu nos USA no Departamento de Línguas Românicas na University of North Carolina, nunca viu uma apresentação daquele nível. Mais tarde aparece o poeta Ademir Assunção a Vera e o Paulo. Brindes com um Vinho do Porto pra celebrar.
9 da náite na Casa da Sílvia – decoradora e artista, para comemorar o aniversário do Galo – crooner da Banda Chá de Boldo. Prestem atenção nesta banda. Agregam poesia moderna, ponto de vista paulista/urbano, alegres, ótimos interpretes e compositores.
Volto pra casa andando (entre a Vila Madalena e a Pompéia) pela madrugada paulistana como que, novamente, colocando no nível corpo e mente.

sábado, 12 de junho de 2010

Atalhos



Na quinta de manhã quando fui buscar o pão de manhã cedo encontrei o Julio Vilela e falávamos do trabalho que cada job exige e, lá pelas tantas (quando já abríamos a portaria), ele falou que não existem atalhos, no sentido de que você precisa percorrer um caminho. Contra argumentei dizendo que os atalhos são o conhecimento.
Pelas 9h ia subindo a Rua Guiará para pegar o bumba para o trampo, parei no meio do quarteirão para fotografar esta flor de maracujá. No mesmo momento passa por mim o Akira, que foi laboratorista do Segiy Yamada muito tempo. Foi considerado o melhor printer, em cópias coloridas, de Sampa. Mandou bem.
Ele torce o nariz para as novas tecnologias.
O laboratório onde ele trabalhou muitos anos foi demolido recentemente e um prédio residencial de 20 andares ocupa aquele terreno.
Para provocá-lo mostrei a foto feita na hora e disse para ele que, se eu quisesse, poderia enviar aquela imagem para qualquer lugar, via internet, pelo telefone celular.
Ele franziu a testa.
Fomos conversando rua acima. Ele contou que um dia o fotógrafo Flieg lhe disse que todo o que tinha conquistado na fotografia fora um carro e um apartamento.
Eu disse que o acervo dele vale muito mais do que isso e contei que o fotógrafo Walter Firmo vendeu seu acervo fotográfico por um milhão de reais.
Ele ficou pasmo e me contou que um fotógrafo deu pra ele várias chapas de negativo 13x18cm e ele recusou porque não tinha onde colocar.
Não sabia dos atalhos.