
Adepto ao car free (sem carro) pego ônibus e metrô alternadamente para ir e voltar do trabalho e, nestes itinerários, às vezes desço a Rua da Consolação e em outras a Rua Augusta.
Hoje vim no bumba que desce a Rua Augusta. Antes parei no Conjunto Nacional da Av Paulista para ver a Exposição Retrospectiva 2009 de Fotografias da ARFOC. Alí tem um conjunto de fotografias admiráveis mas quem brilha é o poema do Maurilo Clareto, de uma poética visceral. Lilo é daqueles que canta samba, dá gargalhadas, chora e ama. Valeu Lilo me sinto super identificado com o seu poema.
O repórter fotográfico
Você viu o brilho da dor nos olhos das pessoas.
Você sofreu com elas.
Você pisou nas cinzas, na brasa e respirou a fumaça do incêndio.
Você sentiu o cheiro da morte e quase pisou na poça de sangue.
Você tropeçou no cadáver e quase levou um tiro. Você estava no confronto.
Você ouviu os gritos nas entranhas da rebelião.
Você contou os mortos.
Você levou porrada da polícia e foi ameaçado pelo traficante.
Você esteve no coração do lar daquela família dilacerada pela violência.
Você viu de perto a fome e o desemprego.
Ninguém melhor que você sabe o significado físico da miséria,
da exclusão social, da má distribuição de renda.
Porque você esteve também em banquetes nababescos.
Você desceu as ruas da favela e subiu os elevadores da FIESP.
Você sabe o que é Brasilândia, Jardim Ângela, SESC Itaquera
E sabe o que é Leopoldo, Fasano e Credicard Hall.
Você viu – muito bem – onde foi enfiado o dinheiro dos impostos.
Você provou um pouco da vida de quem tem muito, muito mais do que necessitaria ter.
Você comeu caviar.
Você viu a luz na expressão da artista e desejou a boca, as pernas, os seios da modelo.
Você se excitou. Se duvidar, você a amou.
Você fitou o semblante do homem santo, você orou com a multidão. Você foi quase santo.
Você quase beijou o umbigo da passista e sambou na avenida.
Foi pagão entre pagãos.
Você aprisionou a alma do Ianomâmi e ainda tem a sua alma presa em uma aldeia.
Você viveu a glória das vitórias e o desespero das derrotas.
Você esteve sempre ali, na cara do gol.
Você ensurdeceu com o ronco dos motores e aspirou o cheiro de combustível nos cock pits.
Você chorou com toda aquela gente a morte do campeão.
Você estava lá quando o povo foi para as ruas e derrubou o presidente.
Você se misturou aos cara pintadas.
Na festa democrática das eleições você também estava lá. E se emocionou. Você se angustiou com a dor das diferenças, com a tragédia das fatalidades. Você viveu!
Você viveu muito! Você vive intenso.
Por isso você bebe. Você fuma, ri alto, protesta, provoca, faz festa.
E é tachado de maluco, transviado, inconseqüente, alucinado, irresponsável, inconveniente...
Também assim chamam os poetas.
Por isso, não ligue para os humores daqueles que não te entendem e,
sentados atrás da mesa, na frieza dos monitores e do ar condicionado, arautos do “dead line” aguardam, impacientes, sua foto.
Entenda: eles só podem viver depois do fechamento...
Maurilo Clareto.




Reginaldo é o autor da frase “Quando a gente transa bem com a mulher, no dia seguinte ela varre o terreiro cantando”. Era o mais novo dos filhos do Manuelzinho do Neca e da Dona Aurora. Também nasceu em Água Suja e isto torna seu curriculum diferenciado, no sentido de ter sido privilegiado com a aterrissagem da cegonha nos anos cinqüenta, duas ruas abaixo do largo do Santuário de Nossa Senhora da Abadia (naquele tempo eu acreditava em cegonha).




foliões porque os instrumentos eram adornados de fitas coloridas e ele me respondeu que “eram para imitar o arco iris.
Mané Caboclo com seu pé-de-bode, Moreno da Gaita (os dois se conhecem há dois anos e até o momento que perguntei o nome de cada um eles não sabiam) e João Paulo dos Cavalos(cavaquinho) fizeram uma jam session (termo musical usado para os músicos de jazz quando improvisam e tocam juntos sem ser a apresentação oficial) merecedoras da gravação de um CD. Como gostei comprei um CD do Mané Caboclo e seu Pé-de-Bode. Quando cheguei em São Paulo e coloquei o CD para ouvir não tinha nada dele. Comprei gato por lebre. Na capa do CD está ele alí todo feliz com sua sanfona verde. Valeu o que vi e ouvi.