sábado, 12 de junho de 2010

Atalhos



Na quinta de manhã quando fui buscar o pão de manhã cedo encontrei o Julio Vilela e falávamos do trabalho que cada job exige e, lá pelas tantas (quando já abríamos a portaria), ele falou que não existem atalhos, no sentido de que você precisa percorrer um caminho. Contra argumentei dizendo que os atalhos são o conhecimento.
Pelas 9h ia subindo a Rua Guiará para pegar o bumba para o trampo, parei no meio do quarteirão para fotografar esta flor de maracujá. No mesmo momento passa por mim o Akira, que foi laboratorista do Segiy Yamada muito tempo. Foi considerado o melhor printer, em cópias coloridas, de Sampa. Mandou bem.
Ele torce o nariz para as novas tecnologias.
O laboratório onde ele trabalhou muitos anos foi demolido recentemente e um prédio residencial de 20 andares ocupa aquele terreno.
Para provocá-lo mostrei a foto feita na hora e disse para ele que, se eu quisesse, poderia enviar aquela imagem para qualquer lugar, via internet, pelo telefone celular.
Ele franziu a testa.
Fomos conversando rua acima. Ele contou que um dia o fotógrafo Flieg lhe disse que todo o que tinha conquistado na fotografia fora um carro e um apartamento.
Eu disse que o acervo dele vale muito mais do que isso e contei que o fotógrafo Walter Firmo vendeu seu acervo fotográfico por um milhão de reais.
Ele ficou pasmo e me contou que um fotógrafo deu pra ele várias chapas de negativo 13x18cm e ele recusou porque não tinha onde colocar.
Não sabia dos atalhos.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Fotojornalismo


Adepto ao car free (sem carro) pego ônibus e metrô alternadamente para ir e voltar do trabalho e, nestes itinerários, às vezes desço a Rua da Consolação e em outras a Rua Augusta.
Hoje vim no bumba que desce a Rua Augusta. Antes parei no Conjunto Nacional da Av Paulista para ver a Exposição Retrospectiva 2009 de Fotografias da ARFOC. Alí tem um conjunto de fotografias admiráveis mas quem brilha é o poema do Maurilo Clareto, de uma poética visceral. Lilo é daqueles que canta samba, dá gargalhadas, chora e ama. Valeu Lilo me sinto super identificado com o seu poema.


O repórter fotográfico

Você viu o brilho da dor nos olhos das pessoas.
Você sofreu com elas.
Você pisou nas cinzas, na brasa e respirou a fumaça do incêndio.
Você sentiu o cheiro da morte e quase pisou na poça de sangue.
Você tropeçou no cadáver e quase levou um tiro. Você estava no confronto.
Você ouviu os gritos nas entranhas da rebelião.
Você contou os mortos.
Você levou porrada da polícia e foi ameaçado pelo traficante.
Você esteve no coração do lar daquela família dilacerada pela violência.
Você viu de perto a fome e o desemprego.
Ninguém melhor que você sabe o significado físico da miséria,
da exclusão social, da má distribuição de renda.
Porque você esteve também em banquetes nababescos.
Você desceu as ruas da favela e subiu os elevadores da FIESP.
Você sabe o que é Brasilândia, Jardim Ângela, SESC Itaquera
E sabe o que é Leopoldo, Fasano e Credicard Hall.
Você viu – muito bem – onde foi enfiado o dinheiro dos impostos.
Você provou um pouco da vida de quem tem muito, muito mais do que necessitaria ter.
Você comeu caviar.
Você viu a luz na expressão da artista e desejou a boca, as pernas, os seios da modelo.
Você se excitou. Se duvidar, você a amou.
Você fitou o semblante do homem santo, você orou com a multidão. Você foi quase santo.
Você quase beijou o umbigo da passista e sambou na avenida.
Foi pagão entre pagãos.
Você aprisionou a alma do Ianomâmi e ainda tem a sua alma presa em uma aldeia.
Você viveu a glória das vitórias e o desespero das derrotas.
Você esteve sempre ali, na cara do gol.
Você ensurdeceu com o ronco dos motores e aspirou o cheiro de combustível nos cock pits.
Você chorou com toda aquela gente a morte do campeão.
Você estava lá quando o povo foi para as ruas e derrubou o presidente.
Você se misturou aos cara pintadas.
Na festa democrática das eleições você também estava lá. E se emocionou. Você se angustiou com a dor das diferenças, com a tragédia das fatalidades. Você viveu!
Você viveu muito! Você vive intenso.
Por isso você bebe. Você fuma, ri alto, protesta, provoca, faz festa.
E é tachado de maluco, transviado, inconseqüente, alucinado, irresponsável, inconveniente...
Também assim chamam os poetas.

Por isso, não ligue para os humores daqueles que não te entendem e,
sentados atrás da mesa, na frieza dos monitores e do ar condicionado, arautos do “dead line” aguardam, impacientes, sua foto.
Entenda: eles só podem viver depois do fechamento...

Maurilo Clareto.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Soberania

Retrato do poeta Manoel de Barros em azul acima da máscara

É da natureza dos grafites urbanos serem sobrepostos ou deletados. Na pequena e abandonada praça em frente à Camara Municipal de São Paulo, no início da Rua Santo Antonio, este grafiti já mostrou o poeta Manoel de Barros na parede limpa. Ontem estava assim. A praça fica em frente ao quinto maior orçamento público do Brasil. Pela manhã fede a merda. Mendigos a usam como mictório. As crianças não aparecem porque os brinquedos apodreceram. Quem sabe um dia os vizinhos se mobilizem e reinvidiquem a recuperação da praça e a renomeiem em homenagem a este poeta que considero um dos melhores que já lí.

Soberania

Manoel de Barros

Naquele dia, no meio do jantar, eu contei que
tentara pegar na bunda do vento — mas o rabo
do vento escorregava muito e eu não consegui
pegar. Eu teria sete anos. A mãe fez um sorriso
carinhoso para mim e não disse nada. Meus irmãos
deram gaitadas me gozando. O pai ficou preocupado
e disse que eu tivera um vareio da imaginação.
Mas que esses vareios acabariam com os estudos.
E me mandou estudar em livros. Eu vim. E logo li
alguns tomos havidos na biblioteca do Colégio.
E dei de estudar pra frente. Aprendi a teoria
das idéias e da razão pura. Especulei filósofos
e até cheguei aos eruditos. Aos homens de grande
saber. Achei que os eruditos nas suas altas
abstrações se esqueciam das coisas simples da
terra. Foi aí que encontrei Einstein (ele mesmo
— o Alberto Einstein). Que me ensinou esta frase:
A imaginação é mais importante do que o saber.
Fiquei alcandorado! E fiz uma brincadeira. Botei
um pouco de inocência na erudição. Deu certo. Meu
olho começou a ver de novo as pobres coisas do
chão mijadas de orvalho. E vi as borboletas. E
meditei sobre as borboletas. Vi que elas dominam
o mais leve sem precisar de ter motor nenhum no
corpo. (Essa engenharia de Deus!) E vi que elas
podem pousar nas flores e nas pedras sem magoar as
próprias asas. E vi que o homem não tem soberania
nem pra ser um bentevi.

Texto extraído do livro (caixinha) "Memórias Inventadas - A Terceira Infância", Editora Planeta - São Paulo, 2008, tomo X, com iluminuras de Martha Barros.
P.S. Para o Mario Abel, morador do prédio vizinho à praça e que foi meu assistente.



terça-feira, 23 de março de 2010

Menas

Menas - Museu da Lingua Portuguesa


Tá tudo dominado. Isto em relação ao meu tempo. Trampo, filho, Camburi, USP, CQC (o melhor jornalismo de todos os tempos), casa, rango, prazer e sono. Por isso as postagens são amiude. Passei 15 horas fazendo uma tarefa para o curso de antropologia cultural mas no final de semana deu tempo pra ver algumas exposições. Fui com a Angela que veio me visitar. Menas é ótima, divertida, bem montada e oxigenada - Museu da Lingua Portuguesa. Na Pinacoteca a mostra do acervo do Banco Itaú tem alguns atlas maravilhosos e várias panorâmicas (estou fazendo uma série de panorâmicas nas minhas perambulações no patropi e fui me embasar). Pegamos um rango num restaurante simples no Bom Retiro - comida árabe barata e deliciosa. Um pit stop na Liberdade para a Angela comprar recuerdos pra filha e a próxima parada na FIESP ver a expô da fotógrafa Maureen Bisilliat. É uma retrospectiva de seu trabalho. Quatro temas são referências para qualquer fotógrafo sensível: Vaqueiros, Grande Sertão, Face Negra e Bahia. As outras: Japão, China, Haiti e Costa do Marfim são "menas".

quinta-feira, 4 de março de 2010

La recherche du temps

Alameda de acesso - Escola de Comunicação e Artes da USP

Fiz o curso ginasial e até o meio do científico (hoje ensino médio). Trabalhava e estudava à noite. Querendo viver a vida, abandonei o estudo regular e vim vindo no autodidatismo. Virei jornalista e na Bahia de todos os santos fiz meu debut. Gil chegou da Europa, Menininha do Gantois fez 50 anos de babalorixá, A.C.M iniciava a reconstrução da Bahia e alí quis conhecer os baianos (as). Entrevistei muita gente mas não conclui a reportagem.

Depois de um amor mal resolvido mudei, fui pra Porto Alegre. Na minha procura ia, nas manhãs, para o Instituto Geográfico e Histórico para ler coisas sobre os gauchos (as) e já aflorava um interesse pela antropologia. Fiquei sabendo que o melhor curso de antropologia estava na UnB (Universidade de Brasília). Nova mudança para o Planalto Central do país. Na Capital da Esperança.

Entrei numa fria logo no primeiro emprego mas sobrevivi. Fiz cursinho de madureza. Provas em Goiania e Anápolis. Ficou faltando uma, de matemática, mesmo assim me inscrevi para o vestibular da UnB. Trabalhava durante o dia e fazia cursinho pré vestibular de noite. Queria retomar os estudos. Três dias antes da prova do vestibular fui convidado pelo Vessani (ainda vou falar sobre ele) para trabalhar com os índios Yanomami em Roraima. Nos dois dias seguintes fiquei tomando vacinas e arrumando a papelada. Da janela do avião em direção à amazonia ví a fila para o vestibular da UnB. Decisões. Entre 1976 e 2010 muita água passou no Rio Bagagem.

Ontem assisti a primeira aula de marketing e planejamento mercadológico na USP - Universidade da Terceira Idade. Fiquei feliz. Estou estudando na USP! Amanhã vai começar o curso de Antropologia Cultural e sinto que, na procura do tempo, não tem data nem hora. O importante é o aqui e agora.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Varrendo o terreiro

Reginaldo é o autor da frase “Quando a gente transa bem com a mulher, no dia seguinte ela varre o terreiro cantando”. Era o mais novo dos filhos do Manuelzinho do Neca e da Dona Aurora. Também nasceu em Água Suja e isto torna seu curriculum diferenciado, no sentido de ter sido privilegiado com a aterrissagem da cegonha nos anos cinqüenta, duas ruas abaixo do largo do Santuário de Nossa Senhora da Abadia (naquele tempo eu acreditava em cegonha).
Em março de 1955 fomos juntos com o cachorro Fiel, papagaio, umas coisinhas miúdas e outros irmãos, na carroceria do caminhão Chevrolet Tigre, para Belo Horizonte.
Por ser o caçula era o preferido da mamãe e assim foi por muitos anos. Vivi com eles até 1971 quando caí na vida do jornalismo e me mudei de Belo Horizonte.
De vez em quando voltava e nos encontrávamos. Ele tinha uma maneira muito própria de viver. Gostava de cavalos, boas roupas, mulheres e carros. Com o tempo se profissionalizou como vendedor de carros e ganhou alguns prêmios pela sua performance nas revendedoras autorizadas.
Mudou para Brasília e de lá para Goiânia onde casou e teve um filho.
Construiu uma casa confortável nos arredores de Goiânia e plantou frutas. Fez um cantinho gostoso onde convidava os parentes e amigos para churrascos e cervejadas regadas com piadas divertidas. Ria gostoso.
De uns tempos pra cá seu fígado ficou fragilizado e foi parando de funcionar até nesta última quinta-feira do carnaval quando parou de vez e provocou a falência de outros órgãos e ele se foi.
Em abril do ano passado veio me visitar para se consultar com bons médicos.
Diagnosticado, optou por se cuidar, à sua maneira. Não quis fazer o transplante, sisudo com os efeitos colaterais.
Quis conhecer as praias paulistas.
Fomos para Camburi e Praia da Baleia.
Ali tomou o seu último banho de mar.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

A mala da Evely


Evely ficou órfã cedo. A mãe morreu e meses depois foi a vez do pai. Criada por uma tia, desencontros com um tio e ciúmes da prima. Aos 17 anos colocou numa caixa coisas pequenas que os pais deixaram e foi pra Israel. Lá ficou um tempo. Quando teria que enfrentar o serviço militar obrigatório, por sorte, voltou para o Brasil. Antes, ainda em Israel, confiou a mala à Irina, sua amiga de infância, rogando para que ela guardasse porque voltava ao Brasil sem saber se por dias ou anos. Na cidade maravilhosa fez uma auditoria pessoal na vida e na herança de imóveis dos pais. Ficou nesta função dividindo o tempo em ser modelo. Sempre foi linda. Hoje os imóveis lhe dão uma vida financeira confortável.
Irina também saiu de Israel, Austrália, Londres, França e Bahia. Atualmente na Califórnia nos USA. Neste período as duas perderam contato.
No final do ano passado, a amiga de infância localizou Evely no Facebook. Contou que a mala, 30 anos depois e bem conservada, ainda estava com ela. Queria devolver aquela cumplicidade afetiva. Vinda pelo correio a mala continha fotografias, bilhetes e cartas dos pais.
Uma outra amiga, daquele tempo, foi convidada pra ver a abertura solene e foi ela que me contou esta história. Disse também que tinha uma fotografia em que as duas irmãs e os pais estavam eternizados naquela imagem de uma manhã doningueira no Jardim Botânico